Daniel (recifense que trabalhou comigo há muito tempo) e agora está na Nokia da Finlândia, Camila (esposa) e outros agregados (irmão, amigo do irmao, amigo do amigo) passaram uns 5 dias aqui em Berlim no final do ano passado e combinamos de fazer um passeio juntos, no final das contas decidimos: vamos fazer o tour para Sachsenhausen, que é um campo de concentração que fica nos arredores de Berlim (30 minutos de trem).
Geralmente (99,99% dos casos) o intuito de viajar é se divertir. Mas, aqui em Berlim e outras cidades da Alemanha existem diversos “tours” para os campos de concentração. Por motivos óbvios, o intuito desses passeios não é celebrar o período nazista nem ser algo agradável, mas sim de lembrar o que aconteceu para que a coisa não se repita. Mas, de qualquer forma não deixa de ser estranho, você vai com uma pulga atrás da orelha…
Na chegada, vendo esse mapa já dá para ter uma boa idéia do tamanho do campo, cada “retângulo” no triângulo (está de cabeça para baixo na foto) principal abaixo era um barracão:
A partir daí você anda uns 300 metros na direção da portão principal do campo, mas antes de chegar lá você passa ao lado desse casarão, que na época funcionava como, pasmen, casino e bordel:
Bordel? sim, pois é, também achei muito estranho, nunca tinha ouvido falar disso. Mas, quem frequentava aí? daqui a pouco chego lá…
Exatamente falando, Sachsenhausen era um campo de trabalho (na época nazista havia a distinção entre os desse tipo e os de extermínio), e por esse motivo ele tem essa frase bastante famosa no portão de entrada: Arbeit macht frei, que significa: “O trabalho liberta”.
Até acredito que dependendo do trabalho ele pode até libertar, mas no caso de Sachsenhausen era apenas uma conversa fiada dita aos prisioneiros que chegavam. No início eram até recebidos com um certo discurso de boas-vindas, mas com o tempo foram vendo como a banda realmente tocava.
Em relação aos prisioneiros, ao contrário do que eu achava eles não eram na sua maioria judeus. Pelo que lembro, por Sachsenhausen passaram 250.000 pessoas, dos quais “apenas” 60.000 era judeus. O restante (190.000) era formado por vários perfis que não eram bem-vistos pelo governo nazista: antissociais (alcoólatras, prostitutas, viciados em drogas), homossexuais, criminosos, doentes mentais, inimigos políticos, prisioneiros de guerra (principalmente russos) e até nazistas que caiam em alguma desgraça. Cada perfil tinha um triângulo colorido para tornar visível o motivo da detenção, e um mesmo prisioneiro poderia receber mais de uma. Assim, um soldado russo que também fosse judeu estava praticamente com os dias contados.
Como o campo era de trabalho, os prisioneiros realmente pegavam no batente (embora ninguém foi liberto por conta disso), e nesse campo participavam principalmente da fabricação de tijolos e até mesmo na falsificação de dinheiro (alguns judeus eram especialistas em impressão/gráfica, daí em troca de regalias + pressão + vontade natural de viver falsificavam perfeitamente libras e dólares), fizeram até um filme recentemente (muito elogiado por sinal) chamado Os Falsários que conta essa estória:
Quem quiser saber mais detalhes tem esse link, até o judeu protagonista do filme veio morar no Brasil: http://www.viapolitica.com.br/nota_view.php?id_nota=68
Então, para “animar”/aumentar a produtividade entre os trabalhadores (apenas as pessoas e cores/perfis mais privilegiados, judeus por exemplo estavam fora dessa, não sei se os falsificadores tinham esse direito), assim como para melhorar o moral dos guardas, havia lá o casino/bordel mostrado no início. A primeira coisa que vem a cabeça é que as judias (sempre o pior sobrava para eles/elas) tinham sido forçadas a se prostituir. Mas, aparentemente (não existe uma grande certeza nisso) isso não aconteceu. Como o nazismo pregava superioridade de raças, blablablá, eles não queriam nenhum tipo de mistura. Assim, alemão ficava com alemã, polonês com polonesa, etc. Como no campo um dos perfis/cor era de prostitutas, então acabou sobrando para elas mesmo.
Mesmo sendo um campo de trabalho, a vida em Sachsenhausen não era brincadeira: abusos, violência e todas aquelas estórias que todo mundo já sabe. Quem pisasse na área neutra da foto abaixo era metralhado pelos guardas, e muita gente não aguentava a barra e pisou aí como forma de se “suicidar”:
Depois você entra nos barracões, mantidos de propósito como na época de guerra. Para os prisioneiros tudo era cronometrado: uso do banheiro para as “necessidades” e banho. A água, que ficava nessa espécie de chafariz (que também era usado para afogar pessoas), além de fria não era trocada (assim todos do barracão tomavam banho com a mesma, ótimo para espalhar doenças), além disso papel higiênico também não existia. Vale salientar que água quente no inverno e até mesmo outono de Berlim não é questão de conforto, mas uma necessidade básica de extrema importância:
Na foto abaixo a farda usada pelos prisioneiros. No início das atividades do campo até existia uma versão para o inverno, mas depois acabou ficando somente essa para o ano todo mesmo. Agora em janeiro a temperatura varia de -0 a -10 aqui em Berlim, mas alguns dias dá uma doida e chega a -15, eventualmente podendo chegar a -20. Essa farda aí não dá para nada nessas situações, fica fácil de entender porque muita gente morreu literalmente de frio.
Além do museu judeu, que foi montado dentro em um antigo barracão, ainda existe esse museu da foto abaixo, com vários objetos, fotos, documentários em vídeo sobre a história do lugar, etc:
Enfermaria onde eram feitas as autópsias e “experimentos”. Como a guia falou, todo campo tinha um Mengele (médico que ficou conhecido como o anjo da morte). Quando o exército tinha alguma dúvida isso era testado com os prisioneiros. Ex: para curar ferimento de bala tal, o remédio tal funciona? ou qual o melhor remédio? daí pegava-se uma ou várias pessoas, faziam os ferimentos e testavam.
Aqui o que sobrou do crematório, que ficava bem perto da câmara de gás. O gás era na verdade uma maneira mais impessoal de matar os prisioneiros, já para aliviar a tensão nos soldados de ter que matar/maltratar gente a sangue frio, dia após dia. Pelo mesmo motivo, cabia aos próprios prisioneiros outros trabalhos desagradáveis no campo, como colocar os corpos no crematório. Cada barracão tinha uma espécie de chefe (que também era prisioneiro mas recebia regalias por conta disso) para “botar ordem” nas coisas, e muitas vezes esse “chefe-prisioneiro” ainda conseguia ser pior que os próprios nazistas (que escolhiam um criminoso barra pesada para o cargo, e não alguém paz-e-amor).
Já que esse post está quase virando um livro, alguns comentários/impressões para terminar: o campo/lugar não é “aterrorizante” quanto eu achava. Afinal, o pior: as pessoas sofrendo não estão mais lá, sobrou o esqueleto/paredes da coisa. O que causa mais impacto é você ouvir as estórias no lugar que aconteceram. Ex: é diferente você ouvir que em tal lugar se fazia tal coisa, do que ouvir nesse poste/madeira que você está ao lado morreram tantas pessoas com tal tipo de castigo/tortura, daí o poste que era “inofensivo” passa a “dar medo”/virar uma cena de crime.
A outra guia de Munique falou que todo estudante alemão (criança/adolescente) faz no mínimo duas visitas a campos de concentração durante a sua “vida escolar”. Isso é um trauma danado para eles (do tipo: vejam que horror, isso era na época dos seus avós). A própria guia era filha de pai alemão e mãe norueguesa, nasceu/morou nos Estados Unidos e dizia que lá eles (familia dela e de amigos) escondiam as origens sempre que podiam, e que a primeira vez que ela viu na vida os alemães exibindo a bandeira nas ruas com orgulho foi na última copa, mais de 50 anos depois do final da guerra. Cheguei há pouco na Alemanha e não posso generalizar o que vi/ouvi até agora, mas conversando com algumas pessoas no trabalho eles falam algumas coisas do tipo “mas é claro que as pessoas (de outros países) não gostam da gente”. Eles tem orgulho da engenharia, da lógica, do país rico e organizado que têm, mas no quesito simpatia internacional aparentemente não esperam que venha coisa boa para o lado deles. Uma gafe por aqui é chamar um austríaco de alemão (afinal ambos falam alemão), porque eles não querem a associação que lembre o nazismo.
Mas, como tudo tem um lado bom ou pelo menos de aprendizado, acho bastante louvável e comportamento “atual” deles: realmente a coisa foi bastante feia mas tudo é bastante exposto e aberto para todo mundo ver. Semana passada passamos no Tiergarten e tinham várias bandeiras de Israel e da Alemanha juntas por conta de uma visita oficial, com tantos problemas entre países no mundo parece que pelo menos esse está se resolvendo/resolvido.
Para quem quiser conhecer, várias empresas fazem a visita que geralmente dura 6 horas no total e custa entre 10 e 15 euros. Link para o pessoal da InsiderTours:
Sachsenhausen Concentration Camp: Memorial Tour
Tags: nazismo, sachsenhausen










Esse tour eu me recusei de fazer. Medooooo!!!
Saulo, obrigado demais pelas informações. Obrigado também pela indicação do filme, já estou baixando aqui para dar uma olhada. Fico feliz de poderes compartilhar estas informações e experiências que vocês vivem por aí. Grande abraço e vamos ve se pelo menos que a próxima copa é um grande motivo para nos encontrarmos!
Para quem se interessa pelo assunto, o filme que o Saulo indicou é muito interessante. Vale muito os 90 minutos investidos.
Saulo:
O post é muito cultural, mas é bem pesado !!!
abração
Danielle
Saulo,
Grande lição cultural. Aprendi um pouco mais sobre o horror que as pessoas passaram no campo de concentração…Lamentavel!!!
Um abraço,
fil
Massa esse post, a farda dos prisioneiros igualzinha a que foi mostrada no filme o menino do pijama listrado.
abraço tio
Oi Saulo, vou para Berlin no final de julho e estava procurando um campo de concentração por perto, e achei seu post. Aqui vc diz que esse fica a uns 30 minutos de Berlin, mas pelo Google Maps esta dando mais de 2 horas, será que estamos falando do mesmo Sachsenhausen? http://maps.google.com.br/maps?f=d&source=s_d&saddr=Berlim,+Deutschland&daddr=Sachsenhausen&geocode=FY1xIQMdSKTMACkBWQM_N06oRzFwO15bRiAhBA%3BFV7fCgMdonatAClLt1WOgBmkRzE6eYibBFJung&hl=pt-BR&mra=ls&sll=51.316881,11.030273&sspn=3.811067,7.064209&ie=UTF8&z=8
Obrigada
Olá, Marcela, está estranho essas duas horas
com duas horas de trem daqui de Berlim dá para ir muito longe, e esse campo de concentração fica nos arredores, acho que é outra cidade com o mesmo nome mesmo